Portugal é, de longe, o destino europeu mais procurado por brasileiros que querem fazer uma graduação fora do país. O idioma é o mesmo, a cultura é próxima, o diploma é europeu e, desde 2014, várias universidades portuguesas aceitam a nota do ENEM no lugar dos exames nacionais de acesso. Na Universidade do Porto, por exemplo, o Brasil lidera com folga o número de estudantes internacionais matriculados.
Só que existe uma confusão comum: usar o ENEM não significa estudar de graça. O brasileiro entra como estudante internacional e paga uma propina (a mensalidade anual de Portugal) bem maior que a de um português. Neste guia você entende como funciona o ingresso pelo ENEM, quanto custa de verdade e quais caminhos existem para reduzir esse valor com descontos e bolsas.
Como funciona o ingresso pelo ENEM em Portugal
Os primeiros convênios entre instituições portuguesas e o INEP foram assinados em 2014. Hoje, mais de 20 universidades e institutos politécnicos, entre públicos e privados, aceitam o ENEM como critério de seleção. A candidatura não passa por nenhum sistema centralizado brasileiro: você se inscreve diretamente no site de cada instituição, pelo chamado Concurso Especial para Estudantes Internacionais.
Esse concurso tem vagas reservadas para quem não é cidadão da União Europeia. Na prática, você disputa com outros candidatos estrangeiros, e não com os estudantes portugueses que fazem o concurso nacional. Isso torna a entrada bem mais acessível do que parece: em muitos cursos, uma média a partir de 500 pontos já é suficiente para concorrer.
Cada instituição converte a nota do ENEM para a escala portuguesa (de 0 a 20 valores ou de 0 a 200 pontos) e define as provas de ingresso equivalentes para cada curso. Um curso de Engenharia, por exemplo, pode exigir nota mínima em Matemática e Ciências da Natureza, enquanto um curso de Direito vai olhar para Linguagens e Ciências Humanas.
Atenção ao calendário: o ano letivo português começa em setembro, e as candidaturas acontecem bem antes, geralmente entre janeiro e julho, divididas em fases. Na Universidade do Porto, o ciclo 2026/2027 teve fases de 2 de janeiro a 6 de fevereiro, de 9 de fevereiro a 2 de abril e de 12 de junho a 22 de julho de 2026. Quem quer começar em setembro de 2027 precisa estar com o boletim do ENEM 2026 em mãos logo no início do ano.
Universidades portuguesas que aceitam o ENEM
A lista muda de um ano para outro, porque os convênios podem ser renovados ou encerrados. Entre as instituições públicas mais procuradas por brasileiros que aceitam ou já aceitaram o ENEM estão:
- Universidade do Porto (U.Porto): uma das maiores do país, com 712 vagas exclusivas para estudantes internacionais em 57 cursos no ciclo 2026/2027, um recorde.
- Universidade de Lisboa (ULisboa): várias faculdades aceitam o ENEM, com critérios definidos por escola.
- Universidade Nova de Lisboa: aceita o ENEM em diversos cursos de licenciatura.
- Universidade de Aveiro, Universidade do Minho e Universidade do Algarve: boas opções fora dos grandes centros, com custo de vida menor.
- Universidade da Beira Interior (UBI): na Covilhã, conhecida por ter comunidade brasileira grande e moradia estudantil barata.
- Institutos politécnicos (Porto, Leiria, Bragança, Coimbra, entre outros): formação mais prática e propinas geralmente menores.
Antes de montar sua lista, confira no site oficial de cada instituição se o curso que você quer aceita o ENEM no ciclo atual e quais são as notas mínimas por área. Cursos da área da saúde, especialmente Medicina, têm pouquíssimas vagas para internacionais e regras próprias.
Quanto custa estudar em Portugal pelo ENEM
Aqui está o ponto que mais surpreende os brasileiros. Um estudante português paga cerca de 697 euros por ano de propina numa licenciatura pública. O estudante internacional, por outro lado, paga um valor que as universidades calculam com base no custo real da formação.
| Instituição | Propina anual para internacional (licenciatura) |
|---|---|
| Universidade do Porto | De 3.500 a 16.500 euros, conforme o curso, com redução de até 45% para países da CPLP (2026/2027) |
| Universidade de Lisboa | Em geral 7.000 euros (Direito: 1.500 euros; Medicina: 18.000 euros) em 2025/2026 |
| Universidade de Coimbra | 7.000 euros em tempo integral (Medicina: 18.000 euros) em 2025/2026 |
| Universidade da Beira Interior | Cerca de 5.000 euros |
| Estudante português (referência) | 697 euros |
Além da propina, é preciso considerar o custo de vida. Fora de Lisboa e do Porto, um estudante consegue se manter com orçamento bem mais enxuto, principalmente usando residências universitárias e cantinas subsidiadas. Na UBI, por exemplo, as residências custam entre 76 e 291 euros por mês e a refeição na cantina sai por cerca de 2,50 euros.
Para tirar o visto de estudo, o consulado exige comprovar meios de subsistência. A referência usada é o salário mínimo português, que em 2026 é de 920 euros por mês. Essa comprovação pode ser feita com extratos bancários, termo de responsabilidade de familiares ou comprovante de bolsa.
Como conseguir descontos e bolsas em Portugal
Não existe uma "bolsa integral do ENEM" em Portugal. O que existe é uma combinação de descontos e bolsas que, somados, podem baratear bastante a graduação. Os principais caminhos são:
1. Redução para países da CPLP. Por fazer parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, o Brasil tem desconto automático em algumas universidades. O caso mais conhecido é o da Universidade do Porto, que reduz a propina em até 45% para estudantes da CPLP. Com isso, cursos de 3.500 euros podem ficar abaixo de 2.000 euros por ano.
2. Bolsas e reduções por mérito. Várias instituições premiam os melhores alunos, seja na entrada (com base na nota de candidatura) ou ao longo do curso (com base na média do ano anterior). Os critérios e percentuais mudam a cada ano e são publicados em regulamentos próprios, então vale procurar por "bolsa de mérito" ou "redução de propina" no site da universidade escolhida. Uma nota alta no ENEM, além de garantir a vaga, pode abrir essa porta.
3. Escolher bem a instituição. A diferença de propina entre universidades e politécnicos é grande. Um curso de Engenharia num politécnico do interior pode custar uma fração do mesmo curso numa grande universidade de Lisboa, e o diploma tem a mesma validade europeia.
4. Erasmus+ durante o curso. Quem está matriculado numa instituição portuguesa pode se candidatar ao Erasmus+ para passar um ou dois semestres em outro país europeu, com bolsa mensal e isenção de taxas na universidade de destino. É uma forma de ampliar a experiência sem aumentar o custo.
5. Bolsas de fundações e bancos. Programas como o Santander Universidades e fundações portuguesas abrem editais periódicos para estudantes já matriculados. Os valores são menores, mas ajudam com despesas do dia a dia.
Sobre as bolsas do governo português: as bolsas de ação social da DGES, que ajudam os estudantes de baixa renda, são voltadas principalmente a portugueses, cidadãos da União Europeia e estrangeiros com residência legal de longa duração. Quem entra pelo concurso de estudante internacional, em regra, não tem acesso a elas no início do curso.
Estatuto de igualdade: quando o brasileiro paga como português
O Tratado de Amizade entre Brasil e Portugal criou o estatuto de igualdade de direitos e deveres. Em alguns casos, ele permite que o brasileiro deixe de ser tratado como estudante internacional e pague a mesma propina que um português.
A regra geral é que isso vale para quem reside legalmente em Portugal há mais de dois anos de forma contínua antes da candidatura, sem contar o tempo com visto de estudo, ou para quem já tinha o estatuto de igualdade antes de se candidatar. Se o estatuto for obtido durante o curso, o estudante normalmente continua pagando como internacional até o fim.
Para quem sai do Brasil direto para a faculdade, esse caminho raramente se aplica. Mas ele é relevante para famílias que já estão morando em Portugal ou planejam se mudar antes de o filho começar a graduação.
Passo a passo para se candidatar
- Faça o ENEM e mire uma boa nota. Quanto maior a média, mais opções de curso e maior a chance de desconto por mérito. Confira quantas edições anteriores cada instituição aceita.
- Pesquise cursos e critérios. Veja em cada site as provas de ingresso equivalentes, notas mínimas, número de vagas e valor da propina.
- Separe os documentos. Normalmente são pedidos o boletim do ENEM, o certificado de conclusão e o histórico do ensino médio (com Apostila de Haia) e o passaporte.
- Inscreva-se no concurso especial. A candidatura é online, no portal da instituição, e costuma ter taxa entre 35 e 170 euros por instituição.
- Acompanhe as fases. Se não entrar na primeira, ainda há vagas nas fases seguintes, mas a primeira fase costuma concentrar a maior parte delas.
- Com a carta de aceitação, peça o visto de estudo no consulado ou na central de vistos, comprovando meios de subsistência, alojamento e seguro de saúde.
Perguntas frequentes
Não. Usar o ENEM dispensa o vestibular português, mas o brasileiro entra como estudante internacional e paga a propina internacional, que costuma variar entre cerca de 3.500 e 7.000 euros por ano nas públicas. Descontos para países da CPLP e bolsas de mérito podem reduzir bastante esse valor.
A maioria das instituições pede média a partir de 500 pontos, mas cada universidade e cada curso define seus critérios. Cursos concorridos costumam exigir notas bem mais altas em áreas específicas, e algumas instituições também fixam nota mínima na redação.
Depende da instituição. Muitas aceitam notas de edições recentes, geralmente das últimas duas a três provas, mas a regra muda de uma universidade para outra. Confira o edital do concurso especial para estudantes internacionais antes de se candidatar.
É raro e caro. A maioria das vagas de Medicina é preenchida pelo concurso nacional, e as poucas vagas para estudantes internacionais têm propina alta, que pode chegar a 18.000 euros por ano em universidades públicas.
Sim. Quem tem autorização de residência para estudo pode trabalhar em regime parcial, desde que a atividade seja comunicada às autoridades de imigração. Ainda assim, o visto exige comprovar meios de subsistência próprios, então o trabalho não deve ser a única fonte prevista de renda.
Portugal é o melhor caminho para o seu perfil?
Estudar em Portugal com o ENEM é uma das portas mais acessíveis para ter um diploma europeu, mas a propina internacional pesa no orçamento. Por isso, vale comparar com outras opções antes de decidir.
Dependendo da sua nota, do seu inglês e da sua realidade financeira, uma bolsa integral em outro país pode sair mais barata do que uma graduação paga em Portugal.
Se você chegou até aqui, é porque o interesse em estudar fora vai além de um devaneio. O próximo passo é dar um salto concreto: entender exatamente qual programa de bolsa combina com o seu momento de vida e o que precisa fazer para chegar lá.
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